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Capítulo 49 – IPv6

Introdução

O IPv6 já é realidade em boa parte do Brasil — a adoção nacional ultrapassa 50% segundo o Google. Ainda assim, muita gente trabalha confortavelmente só com IPv4 e “a vida segue”: você pesquisa no Google, publica no LinkedIn/Instagram, fala no WhatsApp e acessa o ERP.
Então… por que mexer nisso agora?

Porque ativar IPv6 melhora alcance, moderniza a rede, evita gambiarras futuras e, principalmente, te prepara para ambientes onde o provedor, parceiros ou aplicações exigem o protocolo.
Este capítulo não é um tratado teórico; é um passo a passo prático para você ligar IPv6 no OPNsense com segurança, validando em laboratório e depois em produção.

Escolha sua jornada

🔵 Pílula azul: deixe tudo como está. Seu computador pega IPv4 e você segue trabalhando.
🔴 Pílula vermelha: habilite IPv6 e veja até onde vai o seu tracert (ou melhor, traceroute -6).
A gente vai junto — com calma, testes e rollback à mão.


O que você precisa saber antes de começar

Antes de abrir o OPNsense, responda rapidamente:

  • Seu IPv4 na WAN é fixo ou dinâmico (DHCP/PPPoE)?
  • Seu provedor entrega IPv6? Se sim, ele delega prefixo (ex.: /56, /60, /64) via DHCPv6-PD?
  • Existe documentação (ou contato) do provedor explicando como ativar IPv6?

Essas respostas direcionam o método de configuração:

  • DHCPv6 + Prefix Delegation (PD): mais comum em links corporativos e residenciais modernos.
  • Estático (endereços fixos + gateway): comum quando o provedor entrega bloco próprio /56, /48 etc.
  • NAT66 (exceção): usado somente quando não há delegação/roteamento adequado; funciona, mas perde a “graça” do IPv6 (máquinas internas ainda dependem do NAT).

Planeje primeiro, mude depois

  • Faça lab (EVE-NG/PNETLab ou um firewall de teste).
  • Converse com o provedor: qual o prefixo, método (DHCPv6-PD/estático), MTU recomendado e dns.
  • Documente decisões: onde será /64, quais VLANs recebem prefixo, como ficam as regras.

Conceitos rápidos (o mínimo para não tropeçar)

  • Prefixo: o “equivalente IPv6” de falar “minha rede é 192.168.1.0/24”. No IPv6, redes internas costumam ser /64.
  • Delegação de Prefixo (PD): a WAN recebe do provedor um bloco (ex.: /56) e o distribui em /64 para as LANs (Track Interface).
  • RA (Router Advertisement): anúncio de rede (advertise) que ensina clientes a configurar IPv6 (auto, stateless, DHCPv6 etc.).
  • DNS em IPv6: você pode entregar DNS para os clientes via RA (modo “Assisted”) ou usar DHCPv6.
  • NAT66: tradução de endereços IPv6. Funciona, mas use só se precisar.

Cenário 1 — DHCPv6 na WAN + Track Interface na LAN

Quando usar: seu provedor entrega IPv6 via DHCPv6, com Prefix Delegation (/56 ou /64).
Vantagem: configuração rápida; o OPNsense “rastreia” o prefixo e distribui /64 para as LANs.

Passo a passo

  1. Na WAN

    • Acesse Interfaces → WAN
    • Configure IPv6 Configuration Type como DHCPv6
  2. Na LAN (e/ou VLANs)

    • Acesse Interfaces → LAN
    • Configure IPv6 Configuration Type como Track Interface
    • Selecione a Parent interface como a WAN
    • (Se tiver múltiplas LANs/VLANs, cada uma ganha um Track ID diferente, derivando subprefixos do /56 delegado.)
  3. Verificação

    • Acesse Interfaces → Overview e confira se há endereços IPv6 na WAN e LAN.
    • Clientes da LAN já devem obter IPv6 automaticamente.
  4. DNS e RA (opcional, recomendado)

    • Por padrão, o firewall anuncia a si mesmo como DNS. Para anunciar servidores DNS específicos:
      • Acesse Interfaces → LAN.
      • Marque Manual configuration na seção Track IPv6 Interface.
      • Salve e Aplique.
      • Acesse Services → Router Advertisements → LAN.
      • Marque Router Advertisements: Assisted.
      • Preencha o campo DNS Servers com os endereços de servidores IPv6 desejados. ex.: 2001:4860:4860::8888
      • Clique em Save.
  5. Firewall

    • Crie regras para permitir a navegação usando IPv6, assim como há regras para permitir o IPv4.

Cenário 2 — Endereços IPv6 estáticos (WAN e LAN)

Quando usar: o provedor te entregou endereços fixos (ponto-a-ponto na WAN) e um bloco roteado para a LAN.

Passo a passo

  1. WAN (estático)

    • Interfaces → WANIPv6 Configuration Type: Static IPv6
    • Address: por exemplo, fdd0::2/64 (use o entregue pelo provedor)
    • Gateway IPv6: fdd0::1 (crie e associe como gateway da WAN)
  2. LAN (estático do bloco público)

    • Interfaces → LANIPv6 Configuration Type: Static IPv6
    • Address: por exemplo, 2001:db8:1234:1::1/64 (um /64 do seu bloco)
  3. Anúncios e DHCPv6

    • Services → Router Advertisements → LANRouter Advertisements: Assisted
    • (se quiser) Services → ISC DHCPv6 → LAN → configure o range de distribuição.
  4. Regras

    • Autorize o tráfego de saída IPv6 pela interface LAN (ou VLANs).

Cenário 3 — NAT66 com ULA (último caso)

Quando usar: o provedor não delega prefixo e você precisa “dar IPv6” interno assim mesmo.
Limitações: não dá para “publicar” diretamente um host interno com IPv6 real; trate como se fosse IPv4+NAT (use port forward ou proxy reverso).

Passo a passo

  1. WAN

    • Interfaces → WANIPv6 Configuration Type: DHCPv6 (ou o método disponível)
  2. LAN com ULA (Unique Local Address)

    • Interfaces → LANStatic IPv6: por exemplo, fdde:5453:540e:ff12::1/64
  3. DHCPv6 (LAN)

    • Services → ISC DHCPv6 → LAN
    • From: fdde:5453:540e:ff12::2
    • To: fdde:5453:540e:ff12:ffff:ffff:ffff:ffff
  4. RA (LAN)

    • Services → Router Advertisements → LANRouter Advertisements: Assisted
  5. NAT66

    • Firewall → NAT → Outbound
    • Mode: HybridSave
    • + Add
    • Interface: WAN
    • Version: IPv6
    • Protocol: any
    • Source: LAN net (ou any)
    • Translation / Target: WAN Address
    • Save → Apply
  6. Teste

    • Cliente da LAN deve pegar endereço fdde:…, pingar o google ping -6 google.com e navegar.

Use NAT66 com critério

Ele resolve rapidamente, mas vai contra a filosofia IPv6. Se o provedor puder rotear seu prefixo, prefira os cenários 1 ou 2.


Ajustes finos (DNS, RA e preferências do sistema)

  • DNS por RA: use Assisted e aponte DNS Servers em Services → Router Advertisements → LAN.
  • DHCPv6: quando precisar entregar opções extras, configure em Services → ISC DHCPv6.
  • Preferências globais: em Interfaces → Settings, não deixe “Prefer IPv4 over IPv6” ativo durante a validação.

Resolução de problemas (troubleshooting)

1) “Tenho IPv6, pinga, mas não navega / sites quebram”

Quase sempre é MTU (PMTU). Em PPPoE isso é comum.

  1. Interfaces → WANMTU = 1480Save → teste.
  2. Se persistir, tente 1460.
  3. Persistindo, 1420 costuma salvar o dia.

2) “Cliente não pega IPv6”

  • Confira se RA na LAN está em Assisted.
  • Se usar DHCPv6, valide o range.
  • Reinicie serviços (ou o firewall) após trocas grandes.

3) “Track Interface não funciona”

  • O provedor não está delegando prefixo (PD), ou o prefixo é insuficiente.
  • Confirme com o provedor: /56 é comum para múltiplas VLANs.

Boas práticas

  • Valide em lab, depois vá para produção.
  • Segmente: um /64 por VLAN é a regra de ouro.
  • Logs e visibilidade: monitore System → Log Files e tráfego IPv6 (IDS, Proxy, etc.).
  • Documente prefixos, VLANs e Track IDs.
  • Fale com o provedor sobre PD, MTU e gateways.
  • Evite NAT66 sempre que houver alternativa.

Conclusão

Habilitar IPv6 no OPNsense não precisa ser doloroso. Com planejamento, entendimento do modelo do provedor e testes controlados, você sai do “tá funcionando com IPv4” para um ambiente dual-stack limpo, previsível e pronto para o futuro.

Comece pelo Cenário 1 (DHCPv6 + Track Interface) — quando disponível, ele é simples e sólido.
Se tiver bloco próprio, o Cenário 2 (estático) te dá controle total.
Só recorra ao NAT66 quando for inevitável.