Capítulo 21 – Roteamento Dinâmico

Introdução
No capítulo anterior, aprendemos a configurar rotas estáticas para conectar redes locais e filiais — um modelo simples e eficiente em ambientes com poucas conexões.
No entanto, conforme a infraestrutura cresce, esse método se torna limitado em termos de escalabilidade, resiliência e flexibilidade.
O roteamento estático exige intervenção manual a cada mudança de topologia, o que aumenta o risco de falhas e o tempo de resposta em incidentes.
Para resolver essas limitações, o roteamento dinâmico permite que os dispositivos descubram automaticamente os melhores caminhos de rede e se ajustem diante de falhas de enlace.
No OPNsense, isso é possível com o FRR (Free Range Routing) — um plugin que implementa protocolos dinâmicos como BGP, OSPF, RIP e IS‑IS.
Neste capítulo, focaremos no BGP (Border Gateway Protocol) e no BFD (Bidirectional Forwarding Detection), configurando‑os em um cenário prático de matriz e filial interligadas via MPLS, substituindo o roteamento estático por um ambiente dinâmico, resiliente e autoadaptável.
Por Que Migrar de Roteamento Estático para Dinâmico
Em ambientes simples, rotas estáticas cumprem bem o papel de interconexão.
Porém, em redes corporativas ou provedores, a necessidade de automação e alta disponibilidade torna os protocolos dinâmicos indispensáveis.
| Limitação das Rotas Estáticas | Benefício do Roteamento Dinâmico |
|---|---|
| Requer atualização manual a cada mudança de topologia | Ajuste automático de caminhos |
| Falta de redundância e failover automático | Convergência imediata via BFD |
| Dificuldade de manutenção em múltiplos sites | Gerenciamento centralizado e dinâmico |
| Alto risco de erro humano | Detecção automática de vizinhos e rotas |
Importante
No contexto corporativo, o BGP é amplamente utilizado tanto em provedores quanto em grandes empresas.
Ele oferece controle granular sobre as rotas anunciadas e recebidas, sendo ideal para redes interconectadas por MPLS, VPNs ou múltiplos provedores.
Ainda assim, é possível usar o BGP de forma simplificada em pequenas redes sem gerar complexidade.
Preparando o Ambiente
Antes de configurar o roteamento dinâmico, é necessário remover as rotas estáticas criadas no capítulo anterior, evitando sobreposição de caminhos.
Removendo Rotas Estáticas
- Acesse System → Routes → Configuration.
- Exclua a rota que aponta para a filial (ícone de lixeira).
- Repita o procedimento na filial, removendo a rota que aponta para a matriz.
Com o ambiente limpo, seguiremos com a instalação e ativação do FRR.
Adicionando Rotas Estáticas Para o Enlance MPLS (Enlace da Outra Ponta)
Iremos agora adicionar outras rotas estáticas, que vão nortear como um firewall encontra o outro via enlace MPLS para então negociar as rotas das LANs entre os Firewalls de forma dinâmica.
- Acesse System → Gateways → Configuration.
- Crie um novo Gateway associado a interface MPLS com o IP do roteador CPE (do provedor) que está conectado ao Firewall.
- Acesse System → Routes → Configuration.
- Adicione uma nova rota com destino a rede do enlace MPLS da outra ponta. Ex.: Ao configurar o firewall da matriz, informe o enlace MPLS da Filial (
172.16.2.0/30). No campo Gateway, selecione o Gateway criado anteriormente. - Repita o procedimento na filial, adicionando gateway e rota para o enlace MPLS da matriz.
Instalando e Ativando o FRR
O FRR (Free Range Routing) é o componente responsável por implementar protocolos de roteamento dinâmico dentro do OPNsense.
1. Instalar o Plugin os‑frr
- Vá para System → Firmware → Plugins.
- Marque a opção Community Plugins.
- Localize e instale o plugin
os‑frr. - Após a instalação, atualize a página.
O menu esquerdo Routing ficará disponível.
2. Ativar o FRR Globalmente
- Acesse Routing → General.
- Marque Enable.
- Clique em Apply.
Importante
Sem esta etapa, o FRR permanece inativo, mesmo que os módulos individuais (BGP, OSPF etc.) estejam configurados.
Configurando o Endereço Loopback (Router ID)
O Router ID identifica de forma única o roteador BGP em toda a topologia.
Por boas práticas, utiliza-se um endereço de loopback (interface virtual que nunca cai), garantindo estabilidade nas sessões de roteamento.
Etapas
- Vá em Interfaces → Devices → Loopback.
- Clique em + Add e nomeie como
lo_bgp. - Salve e aplique as alterações.
- Em Interfaces → Assignments, adicione a interface loopback.
- Edite a interface, habilite-a e atribua o endereço IP 10.1.1.1/32 (ou equivalente).
- Clique em Save e Apply Changes.
Importante
Use endereços exclusivos para cada firewall (ex.: 10.1.1.1/32 na matriz e 10.2.2.2/32 na filial).
Assim, o Router ID será único e previsível em toda a topologia.
Configurando o BGP
O BGP (Border Gateway Protocol) é o protocolo responsável por anunciar rotas entre os roteadores da matriz e da filial.
1. Configuração Básica
- Acesse Routing → BGP.
- Marque Enable e Advanced Mode.
- Defina o campo AS Number (Autonomous System) como
65551(AS interno). - Em Router ID, insira o IP da interface loopback (
10.1.1.1). - Marque Graceful Restart — isso evita a queda das sessões durante reinicializações.
- Em Networks, adicione as redes locais que serão anunciadas (ex.:
192.168.1.0/24para a matriz). - Marque Log Neighbor Changes para registrar alterações de estado.
- Clique em Apply.
Importante
Como estamos tratando de um iBGP (BGP interno), matriz e filial utilizarão o mesmo AS Number, indicando que pertencem à mesma organização.
Configurando Vizinhos BGP
Os vizinhos (peers) representam os roteadores com os quais o OPNsense trocará informações de roteamento.
Etapas
- Vá para Routing → BGP → Neighbors.
-
Clique em + Add e preencha conforme o exemplo:
-
Description:
Firewall‑Filial‑MPLS - Peer‑IP: endereço da interface MPLS do firewall remoto
- Remote AS:
65551 - Multi‑Hop: habilitar
-
Enable BFD: marcado (para detecção rápida de falhas)
-
Clique em Save e depois em Apply.
Importante
Se houver roteadores intermediários entre os firewalls (cenário comum em MPLS), ativar Multi‑Hop no vizinho BGP vai permitir a troca de rotas entre saltos não diretos
Configurando o BFD (Bidirectional Forwarding Detection)
O BFD trabalha em conjunto com o BGP para detectar falhas de enlace de forma extremamente rápida — normalmente em menos de um segundo — sem precisar esperar o tempo de expiração do protocolo.
Etapas
- Vá em Routing → BFD.
- Marque Enable.
- Clique em Apply.
Importante
Para que o BFD funcione corretamente, ambos os firewalls (matriz e filial) precisam ter o recurso habilitado.
Testando a Conectividade e as Sessões BGP
Após configurar o BGP e o BFD em ambos os firewalls:
- Acesse Routing → Diagnostics → BGP.
- Verifique se as rotas da rede remota estão sendo aprendidas. O prefixo B na rota indica que foi recebida via BGP.
- Vá até Neighbors e confirme que o estado da sessão é Established.
- Em Routing → Diagnostics → Log, analise possíveis mensagens de erro ou alterações de estado.
Dica
Utilize comandos como traceroute e ping a partir do próprio OPNsense para validar a rota.
Observações Importantes
- FRR não é ativado automaticamente: após a instalação, é necessário habilitar o serviço em Routing → General.
- Router ID fixo: utilize o IP da loopback para estabilidade — ele permanece ativo mesmo se a interface física cair.
- AS Number igual: em cenários de iBGP, matriz e filial compartilham o mesmo número de AS.
- Multi‑Hop: habilite quando houver roteadores intermediários no caminho MPLS.
- Aplicação de alterações: sempre clique em Apply após mudanças em Networks, Peers ou Parâmetros Globais.
Boas Práticas
- Documente todos os parâmetros: IPs de loopback, AS Numbers e redes anunciadas.
- Ative logs de vizinhos: o “Log Neighbor Changes” é essencial para auditoria e troubleshooting.
- Simetria de configuração: garanta que ambas as pontas (matriz e filial) usem parâmetros equivalentes.
- Use BFD com prudência: intervalos muito curtos podem gerar instabilidade em redes sobrecarregadas.
- Implemente caminho alternativo (VPN): mantenha uma VPN IPsec roteada como backup ao MPLS.
- Valide em ambiente de laboratório: utilize ferramentas como PNetLab ou EVE‑NG antes de aplicar em produção.
Estudo de Caso – Migração de Rota Estática para BGP
Cenário
Uma empresa interliga matriz e filial por meio de um enlace MPLS.
As redes são as seguintes:
- Matriz:
192.168.1.0/24 - Filial:
192.168.2.0/24
Problema
O tráfego entre os sites depende de rotas estáticas, o que causa:
- Dificuldade de manutenção e lentidão em ajustes.
- Falta de detecção automática de falhas no link MPLS.
Solução
- Instalar e habilitar o FRR.
- Configurar BGP interno (iBGP) para troca automática de rotas.
- Ativar BFD para detecção rápida de falhas.
- Criar uma VPN IPsec roteada como caminho alternativo de backup.
Resultados
- Redução de esforço administrativo.
- Convergência quase instantânea em falhas.
- Aumento da disponibilidade e estabilidade da comunicação entre matriz e filial.
Conclusão
O roteamento dinâmico com BGP e BFD eleva o ambiente de rede a um novo nível de automação, resiliência e eficiência.
Com o FRR integrado ao OPNsense, é possível construir topologias corporativas complexas com detecção automática de falhas, múltiplos caminhos e convergência rápida.
Essa abordagem é o passo seguinte natural após dominar o roteamento estático, preparando o ambiente para alta disponibilidade e interconexão inteligente entre sites.